O projeto BastAdotar – GAAFICH

Essa reportagem também faz parte do meu livro-reportagem sobre cães e gatos abandonados em Belo-Horizonte, apresentado como projeto de conclusão de curso. Eu conversei com três participantes do projeto BastAdotar – GAAFICH, que resgatam animais do prédio da Fafich da Universidade Federal de Minas Gerais, além de abrigar eventuais animais que batem às suas portas. Espero que gostem.

Um miado no campus 

 A iniciativa de criar, em 2008, por portaria, um Grupo de controle de zoonose, que inclui entre suas atividades o recolhimento, castração, vacinação e encaminhamento para adoção, foi do então diretor João Pinto Furtado, professor da área de História, que também possui em sua casa vários gatos e cachorros retirados das ruas. A criação do grupo legitimou a questão e oficializou o recebimento de verbas para os trabalhos.

A parceria montada com a clínica Cães&Amigos foi proposta porque a Escola de Veterinária da UFMG não se dispunha a abrigar os animais no pós-operatório,  apenas utilizá-los em aulas de castração como material de aprendizado didático dos estudantes do curso. Assim, desde então, os gatos são recolhidos e encaminhados para a castração: a clínica cobra praticamente os custos com a cirurgia e em troca, muitas vezes, os membros do projeto levam os animais da clínica para as feiras de adoção.

Neste ano, houve uma extensão do programa GAAFICH (Grupo de Amigos dos Animais da Fafich) que será dividido em duas partes, a prática e o grupo de reflexão. No grupo de estudos recém-criado serão estudados temas relacionados à convivência histórica entre os animais e os seres humanos, sua representação na mídia e na literatura, a questão de o animal representar a diferença absoluta em relação ao homem – daí incomodar tanto. A parte prática vai incluir, além do recolhimento de animais e encaminhamento para adoção, a promoção de campanhas educativas.  O ponto alto do projeto, neste ano, é a criação do evento Bem-estar animal, em outubro, na Semana do Meio Ambiente, um ciclo de debates com convidados de várias áreas e feira de adoção no último dia.

O objetivo maior, e a longo prazo, é criar uma cultura de convivência pacífica entre seres humanos e animais e ampliar o modelo de lidar com a questão para outras unidades do campus.

Conversamos com três participantes do projeto: Mailce Mendes, responsável pela parte administrativa, transporte e alimentação dos animais no prédio, realizado também pela Hedwiges Carvalho, todas funcionárias; Rafael Miranda, programador do site, que, junto com a Andressa Silveira albergam e cuidam dos gatos. Além deles, participam do grupo as professoras Vanessa Andrade de Barros (Psicologia), Lívia Guimarães (Filosofia) e Mirian Chrystus (Comunicação) que busca divulgação na imprensa, faz reuniões, é coordenadora do grupo de estudos e contribuidora.

 

Quais são os maus-tratos mais frequentes no prédio?

Mailce: Pancadas na cabeça, principalmente dos recém-nascidos.

Andressa: Chutar gato é quase uma expressão, não é?

Mailce: Tem a história que já escutei de soltar do quarto andar. Eu não presenciei. Na minha casa, tenho uma gatinha preta que resgatei, não tinha dois meses ainda. Ela levou uma pancada na cabeça e ficou com sequelas, mas vive bem. A maioria não sobrevive. O veterinário que a atendeu disse: “ela levou um chute na cabeça!”

Andressa: As pessoas acham que é difícil identificar, mas estão enganadas. Às vezes vamos à Fafich para resgatar uma ninhada e tem gato morto escondido no cantinho. Não é morto de doença, é de matado.

Mailce: Há quinze anos, no feriado de 12 de outubro, o Centro de Controle de Zoonoses da Prefeitura de BH entrou no prédio com a autorização da diretoria e conivência de um funcionário que deu carne com sonífero, recolheu e matou todos os gatos na câmara de gás. Houve uma grande manifestação e o nome da UFMG foi parar nas páginas dos jornais, rádios e televisões. Isto, além de sofrer um processo, movido por várias entidades de defesa, na Procuradoria do Meio Ambiente e que corre, até hoje, na Polícia Federal. Não adiantou, porque além do lugar ter se enchido de pestes, escorpiões, aranhas, baratas e ratos, mais tarde outros gatos reapareceram.

 

Eles ajudam a controlar essas pestes?

Mailce: Se achar pestes numa casa onde tenha gatos, elas estarão mortas.

Andressa: O pessoal chama gato de praga, mas eles são a melhor forma de controlar as pragas.

Mailce: Tem gente querendo fazer adoção só pra caçar rato. Somos mais criteriosos nesse caso. O gato não vive só comendo rato, sem comida e água.

Andressa: Até porque ele pode pegar doença. O gato só transmite doença se for mantido sem comida a ponto de procurar algo que lhe fez mal.

 

Quem faz o resgate dos animais?

Andressa: principalmente a Mailce, porque tem carro para fazer o transporte da gatoeira.

Mailce: Estamos tentando entrar em contato com o Zoológico, porque eles têm facilidade para pegar animais ariscos com zarabatana e anestésico.

Andressa: O jeito mais fácil de capturar é indo num final de semana, quando não tem ninguém. Você leva a gatoeira, um bom livro para ler e fica esperando os gatos entrarem (todos riem). Às vezes, leva um dia inteiro.

 

Como o processo de adoção é feito?

Mailce: Feira de adoção, site e blog. Divulgamos também no facebook.

Andressa: Às vezes, levamos aqueles de mais difícil adoção para feira e ‘boom’. Todos são adotados. No site, a escolha é mais pelo fofinho.

Rafael: Quando a pessoa fala: ‘quero adotar um gato’, nós falamos: ‘vem aqui’. Assim, conhecemos o interessado. Também tem o questionário no site, com perguntas do tipo: como é a casa, a quantidade de animais, crianças, pessoas…

Mailce: Para adequar o animal ao ambiente em que ele vai viver.

Rafael mima a gatinha enquanto sua adotante não chega

 

No termo de responsabilidade consta que a pessoa tem que ficar com o gato?

Andressa: Não! Nós sempre falamos que, se tiver problemas de adaptação, é bom devolver. Às vezes, o adotante não conversa com a gente e põe na rua ou devolve, sem saber que podemos trocar por outro animal.

Mailce: Procuramos deixar à vontade para entrar em contato e esclarecer dúvidas. Por exemplo, uma senhora, que tinha uma cadelinha, adotou uma das filhotinhas que estavam na minha casa. Ela me ligou dizendo que a cadela não estava aceitando a gatinha e perguntando o que fazer. Respondi: Você tem duas opções. Quer devolver? Não tem problema. Ou pode fazer um período de adaptação. Um animal novo quando chega à casa é como um bebê onde já existe uma criança. Ele tem ciúmes e acha que está perdendo espaço.

Andressa: Assim também percebemos o interesse e temos mais controle.

Rafael: é melhor do que ficar incomodando todo mundo. No site tem também a opção de comentar no post do gato. O mais importante é se preocupar com o animal.

Andressa: E, se for necessário, vamos até à casa da pessoa

 

A maior dificuldade do projeto é a falta de voluntários?

Andressa: É o preconceito contra o projeto. O reconhecimento do nosso trabalho vem só dos gatos.

Mailce: Há pessoas na Fafich que acham um absurdo gastar dinheiro com gatos. Mas se esquecem de que o trabalho de controle populacional evita a transmissão de doenças e a questão das pragas.

Andresa: Tem ainda aqueles que nos olham como se estivéssemos com a peste negra, por conta da toxoplasmose.

Mailce: É ignorância das pessoas. A doutora Patrícia da Escola de Veterinária atendeu a minha gata e cuidou de inúmeros outros até ganhar neném.

Mailce: A maioria das pessoas já teve contato com a doença, porque ela é transmitida pela carne malpassada. Você só pega do animal se levar as fezes dele até a boca. Dessa forma, é mais uma falta de higiene da pessoa.

 Andressa: Se você está com planos de engravidar não é bom ter 150 gatos porque é complicado manter tudo limpo. Agora um animal? Só se cair de boca na caixinha de areia (risos).

Mailce: A segunda dificuldade é atrair voluntários para divulgação, alimentação dos sites e albergues. A terceira é a financeira.

Andressa: Precisamos muito de voluntários para mídias eletrônicas. Somos mais ‘mão na massa’. Não temos tempo de ficar na internet. Albergues nunca é de mais porque se tiver 100 pessoas, tem 100 gatos para elas. O nosso maior desejo também é conseguir um voluntário que seja advogado.

 

Qual foi o primeiro animal que vocês resgataram?

Andressa: A Morgana.

Mailce: A gata que fica na minha sala.

Andressa: Na verdade foi a Morgana quem resgatou a Mailce.

Mailce e a gata Morgana

Mailce: Porque eu tinha preconceito. Gosto de animais. Mas convivi com cães. Então era aquela história: ‘Não gosto de gatos. Gato é meio estranho, muito arisco, traiçoeiro’. Eu falava sem ter tido contato. Um dia, a Morgana entrou na minha sala.

Lígia: E você não se incomodou com isso?

Mailce: Particularmente, não gosto de matar uma barata. Tive a impressão de que ela estava escolhendo um local seguro para ter os filhotes. Deixei água e comida. Desde o início uma pessoa se dispôs a cuidar do filhote que ela teve. Como eu sabia onde a Morgana ficava, mandei castrá-la por minha conta. Em seguida, foram abandonados quatro filhotes. Três as pessoas pegaram e uma femeazinha ficou andando pelo prédio. Era época de vestibular. Eu estava trabalhando e a vi. Uma pessoa passou, outra… Os alunos chegando. Ela ficava olhando pra todos desesperada.

Andressa: Gato abandonado já chega socializado.

Mailce: Porque já tiveram contato com pessoas. Eu não resisti e falei: ‘vou levar essa gata’. Foi o primeiro animal que peguei e levei pra casa. Logo depois, encontrei uma ninhada abandonada. Levei para a clínica da Dra. Tereza. Enquanto tentava achar adotantes para eles, a Tereza me falou: “Um desses gatos está completamente cego. Você não vai conseguir adotante.” Foi o meu segundo. Eu fui ficando com aqueles de adoção difícil.

Andressa: Quando falamos: ‘eu tenho 15 gatos’, a primeira impressão é que somos colecionadores. No nosso caso não é. Temos 15 gatos porque fomos obrigados.

Mailce: Não olhamos e falamos: ‘não tenho um gato branco, vou pegar’.

Andressa: Essa é a mentalidade do colecionador: ‘falta esse para minha coleção’.

Mailce: Se precisar vamos ficar com um ou outro, como o Davi. A Callue[1],  que se Deus quiser vai se recuperar.

Davi

Callue

Andressa: O meu primeiro animal foi aos sete anos e era de rua. Eu sempre fui uma cat person, alguém que gosta de gato. Mas gosto de cães também.

Mailce: E você Rafael?

Rafael: Quando eu era mais novo os cães eram dos meus pais. Nunca tive um animal só meu. A Elsa foi o primeiro.

Elsa a gata do casal

Andressa: Ela está no nosso relacionamento. Tivemos coragem de entrar no projeto porque foi na mesma época que a Elsa foi chutada. Estávamos revoltados com a essa relação de bicho e ser humano.

 

Mas vocês (Andressa e Rafael) resgataram algum gato antes do projeto?

Andressa: Antes do projeto, entramos numa enrascada. O vizinho saiu para o carnaval e deixou cinco cachorros recém-nascidos trancados dentro de casa e a mãe de fora. Entramos no lugar e levamos os cães. Fizemos tudo errado. Não tínhamos experiência. Era época de chuva, eles sem comida, com fome e frio, pensamos: vai ser assim. Tivemos que devolver porque os cachorros tinham dono. Ao invés de comprarmos uma briga, explicamos nossa situação. Fizemos amizade, ele nos deixou levar a mãe pra castrar e acompanhamos a adoção de cada um dos filhotes. Às vezes é melhor ir com jeitinho.

Rafael: Eles estavam abertos à gente.

Mailce: Muitas vezes, as pessoas fazem as coisas por desconhecimento.

Andressa: Impedir que passe doença ou fazer coisas para o bem-estar do bicho. Outros acham que castrar faz mal.

Mailce: ‘Nossa, coitado! Você vai tirar o divertimento do animal?’

Andressa: ‘Ah, não! Tem que ter a primeira cria antes’. Eu nunca soube de onde saiu isso. Alguém inventou e o trem pegou.

 

O que vocês acham que leva uma pessoa a abandonar ou maltratar um animal?

Andressa: é a mesma coisa que leva uma pessoa a maltratar um humano. Todos os serviços de inteligência americana, CIA, FBI, têm estudos embasados de que serialkillers começam matando animais e terminam com pessoas. O que diferencia é a lei. Quem maltrata não quer ser pego.

Mailce: Com bicho a lei é quase inexistente.

Rafael: A lei dos animais é uma multa, que às vezes você paga.

Andressa: A pessoa que jogou a Calluzinha, um filhote de dois meses contra parede, o que ela via é o mesmo que verá nos seus filhos. O que a impedirá de fazer com a criança não é o fato de que são seres diferentes, mas a punição.

Rafael: Há casos de gatos com olho furado por crianças.

Mailce: Eu acho que nesse caso é educação dos pais. Uma criança que faz isso no futuro vai sair dando tiro por aí.

Andressa: As pessoas nascem amando os animais. A mudança ocorre durante um processo. Sou leiga no assunto. Livros de Freud que li falam assim: algo acontece na primeira infância que as faz ignorar o gato ou cão que está agonizando e passando fome. É uma coisa ensinada, da mesma forma que sua mãe te ensinou a não brincar na sujeira.

 

Quais são as dicas que vocês passam para pessoas que se deparam com um animal abandonado, querem fazer alguma coisa, mas não sabem como?

Mailce: No caso de maus-tratos, encaminhar para um tratamento.

Andressa: Uma clínica que faça um preço em conta e saiba lidar com essa situação. De nada adianta pet shop que só sabe de cachorro de ‘madame’.

Mailce: SosBichos, a Bichos Gerais, Brigada Planetária… Ongs especializadas em resgate, atendimento e depois divulgação.

Andressa: Se for para ter enfrentamento com quem está praticando os maus-tratos, que seja com a polícia, advogado e completamente legal.

Mailce: Tirar fotos, pegar testemunhas, gravações como no caso da mulher que matou a yorkshire[2]. Ter um respaldo e até divulgar na mídia.

Andressa: Bater boca não vai mudar a pessoa ou fazê-la parar.

 

Por que vocês não cuidam de pessoas? Por que ajudar animais?

Mailce: Cachorro não tem SUS, lei, previdência, aposentadoria. Eles foram domesticados por quem? Então quem é que deve arcar com as consequências? Somos nós que trouxemos o problema. Eles são dependentes de uma situação criada pelo próprio homem. E, além disso, eu acho que tem muita gente cuidando ou fingindo que cuida de gente. A situação do animal é mais precária. Isso não quer dizer que não tenhamos sensibilidade com a questão.

Andressa: Eu acho que pra você nascer e merecer viver 70, 80, 90 anos e depois morrer, tem que ganhar o direito de estar aqui na Terra. Alguma coisa você tem que fazer para pagar o que está consumindo e sujando…

Mailce: Mas por que você paga com o animal e não com gente?

Andressa: A questão não é essa. Eu já vou chegar lá (todos riem). A minha consciência é assim, você nasce com uma e não consegue se desligar. Se hoje o que posso fazer é colocar comida para um animal que está passando fome, eu faço. Se tivesse dinheiro e tempo infinitos, eu iria ajudar humano, animal, matas, rios e mares.

Rafael: O trabalho que fazemos é também com pessoas. Nós já pagamos coisas de animais de quem não tinha condições. Uma vez, uma mulher por indicação médica adotou um cachorro e nós fizemos a adoção dela. Ligávamos e perguntávamos: ‘como você está? A medicação está funcionando’? Não vai resolver a fome da África, mas é o que fazemos.

Andressa: Quando pudermos curar a Aids ou o câncer, faremos.

Rafael: Nosso objetivo também é a educação. Quem sabe um dia os animais possam viver na rua, tranquilos, sem serem maltratados.

Andressa: Quando você tira um animal da rua, ele também está te ajudando. Muita gente acha que o cão e o gato evoluíram para virar animal de estimação. Se você estudou evolução a sério, sabe que isso não existe. Existe a coevolução. Evoluímos junto com os animais para vivermos em simbiose. São duas espécies evoluindo juntas para poder conviver em sociedade. E é por isso que, se existe uma cultura no mundo que não tenha contato com animais domésticos, pode-se dizer, sem preconceito, que aquela sociedade é menos evoluída. Ela não teve evolução em questão de outros seres vivos. Não sou eu quem está dizendo, foi Darwin.

Andressa brincando com os gatos na varanda de casa

Quer conhecer mais do projeto, adotar um amiguinho ou fazer doações? Entre em contato com os integrantes através dos endereços eletrônicos abaixo.



[1]Callue era uma filhotinha que estava sendo mantida sedada e à base de soro, por conta de convulsões decorrentes de pancadas na cabeça. Callue morreu dois dias após nossa visita, de complicações no pulmão decorrente dos maus-tratos que sofreu.

[2]No dia 14 de dezembro de 2011, um vídeo foi postado na internet pela vizinha de uma mulher que espancou uma cadela da raça Yorkshire até a morte. O caso virou notícia na mídia nacional após internautas pedirem punição à agressora nas redes sociais.

Comments

comments