CãoViver: o segredo é o controle

Mais uma matéria sobre abrigos e Ongs realizadas para o meu Trabalho de Conclusão de Curso que compartilho com vocês. Espero que gostem.

Cãoviver: o segredo é o controle

O número 165 da rua 1° de maio, no bairro Braúnas, fica escondido numa ruela não asfaltada, com muros altos e árvores que inibem a visão do céu. Toco a campainha, o portão abre automaticamente; a falta de uma recepção convencional me deixa confusa. O lugar é bem arborizado, com pequenos muros de pedra e divisórias de madeira separando entrada, estacionamento, escritório, canil, enfermaria, consultório, quarentena e maternidade.

Enquanto espero a entrevistada, que demora cerca de uma hora, e converso com a moça que limpa os canis e atende os telefonemas, Lana, uma cadela preta de pelo curto e porte médio, faz de tudo para chamar minha atenção: late, pula, chora e uiva. Ela está no canil perto da Francisca, uma cocker cega. “Essas duas são hiperativas. Chica só finge que é cega, porque anda e apronta para todo lado”, comenta a funcionária, que me pede para segurar Lana enquanto limpa o canil. A cadela foi atropelada numa rodovia e resgatada por uma mulher que prestou os primeiros socorros e a levou para a CãoViver. O curativo na perna manca está caído e, apesar da fratura exposta, a cadela quer correr atrás da veterinária, que passa com um voluntário e cães recém-saídos dos canis de observação.

Denise Menin enfim aparece para me atender:

– Você é voluntária?

– Não. Estou aqui para a entrevista sobre a ong.

– Ah, sim. Se fosse voluntária pediria para alimentar os gatinhos. E agora? Me ajuda aqui, por favor?

Três filhotes foram deixados dentro de uma caixa de papelão na porta do sítio, quando ainda não tinham sido desmamados. Sigo a diretora até o escritório com um dos animais no colo. Enquanto ela esquenta a água para misturar ao leite em pó, tento acalmar os miados estridentes, que não cessam com afagos. Desde a infância, meu amor e admiração sempre foram direcionados para os cães; jamais pensei que um dia alimentaria gatinhos com uma seringa com leite, mas é impossível não se render a carinhas tão fofas e gratas pelo nosso gesto.

A ong começou em 2003, por deliberação de uma assembleia de 25 pessoas da qual atualmente só restam dois fundadores: Denise Menin e Vicente Martins. “Vicente era presidente e eu, diretora administrativa. Nosso cargo era vitalício porque não havia ninguém disposto a ocupá-lo, até que a Marisa, uma voluntária que se sobressaía no trabalho, entrou no lugar do Vicente a nosso convite”, comenta Denise.

O sítio era de uma protetora alemã que resgatava jaguatiricas e onças em colaboração com o Ibama. As jaulas foram transformadas em canis, a casa do caseiro em consultório e bloco cirúrgico; com o tempo, novos recintos foram construídos e aguarda-se a doação de materiais para erguer uma área de lazer: “Vicente é engenheiro e já fez o projeto com manilhas, areia, grama… Durante anos ele carregou a ong nas costas, quando não tínhamos parceiros. O parquinho vai aumentar a atividade física dos cães, deixando-os menos estressados. Aqui tudo é feito devagarzinho, porque temos que esperar doações”.

Na CãoViver tudo é pensado nos mínimos detalhes para o bem-estar dos animais. As ordens são muitas e variadas: “Seu Bandeira, amanhã tem que soltar os cães, ontem foi domingo e eles não brincaram”; “Átila, traz, por favor, as caixas com os kits de adoção para o escritório para não atrapalhar o trabalho no consultório?”; “Seu Bandeira, guarda os sacos de ração lá em cima.”

Referindo-se aos gatinhos, a diretora diz: “Quando a entrevista acabar, tenho que alimentar meus pequenos de novo”. É assim o tempo inteiro. Denise corre para todos os lados, atendendo candidatos a adoção e gerenciando o local.

O gasto mensal é de R$ 6 mil reais para cuidar de aproximadamente 120 cães e gatos e cumprir a folha de pagamento de três funcionários e da veterinária. “Geralmente conseguimos por volta de R$ 5 mil com doações, bazares a cada dois meses, bingos, artigos da lojinha, serviços prestados para fora cuja remuneração vem para cá, atendimento veterinário externo… Quando uma pessoa adota, pedimos uma contribuição de R$ 30 reais referente a uma vacina e isso cobre o gasto com o animal que irá preencher essa vaga. Pedimos um auxílio também de quem resgata e traz o animal. Alguns doam R$500, outros R$20, e assim vai”.

Como não recebe ajuda financeira do governo, a ong conta com apoio do projeto “Adotar é tudo de bom”, da Pedigree; da marca Scalibor, fornecedora da coleira contra a leishmaniose; e de clínicas veterinárias parceiras: “Entramos em um concurso da Pedigree e ganhamos uma tonelada de ração, mas isso vai embora rapidinho. Já é a segunda vez. Mandamos um requerimento comprovando nossa utilidade pública municipal e estadual para o Walmart, que doa sacos de ração rasgados. Ganhamos porcentagem com a venda das coleiras preventivas da leishmaniose, algum medicamento e produtos da Pedigree. Aqui não temos serviço de ortopedia, raios-X e exames laboratoriais. O doutor Marcos, da Cães&Amigos, vai fazer a cirurgia da Vitória a um preço bem baratinho, custeado por uma contribuinte. Sobrevivemos com ajuda das pessoas de fora. Mesmo assim, todo mês aperta daqui e dali”.

Paco

Vitória e Paco são os cães recepcionistas da ong. Eles vivem dentro do escritório do sítio, mas, ao escutarem o barulho do portão, saem correndo: “Se eu ou a Marisa chegamos, eles já conhecem os carros, vão para o pátio latir e fazer festa. Vitória já tem adotante, mas o Paco há três anos está aqui. Ele é tranquilo e bonzinho, só tem medo de foguetes”, comenta a diretora.

Vitória

Os obstáculos são muitos: faltam recursos financeiros, voluntários para divulgação e manutenção do ambiente, e há até preconceito: “A maioria chega querendo um cão saudável e bonito. Tem gente que liga perguntando quais as raças nós temos! É preciso ter muita calma nessa hora. Aí eu respondo: ‘raças nós temos todas’. A Vitória tem as cores de um pastor alemão. A Viena parece um pastor suíço tricolor! A Lara, um terrier de pelo duro”.

Denise conta que a média é de 20 adoções por mês, mas, quando ocorrem feiras em locais externos, a saída é maior. Questiono porque não aceitaram a parceria das feiras da prefeitura, que seriam mais uma oportunidade: “Na reunião, foi proposto que os animais do centro não adotados, ao invés de voltarem para o CCZ, viriam para cá. Porém são muitos e essa não é a nossa visão. A responsável pelo projeto falou que a Prefeitura construiria mais dez canis para nós, mas não queremos isso. Iria desestruturar tudo. Conseguimos alta rotatividade desde o começo da CãoViver por conta de um controle. Outra coisa: as pessoas ligariam para cá achando que é local de recolhimento da Prefeitura. Torcemos por eles e o trabalho é incrível, mas não dá pra construir mais dez canis aqui”.

Talvez “controle” seja a palavra-chave para definir a atitude da diretora administrativa e a própria essência da CãoViver, principalmente quando o assunto é adoção. O kit doado pela empresa parceira possui uma mochilinha com vasilha, um brinquedo, sachê de carne, um adesivo e informativos educativos. O interessado apresenta comprovante de endereço, carteira de identidade, contribui com R$ 30 reais, preenche uma ficha com dados pessoais e é entrevistado. “Quando percebemos que a pessoa é irresponsável, não deixamos levar. Fazemos sinais um para o outro e damos a desculpa de que o bicho está adotado ou doente. Eventualmente, se ficamos com a pulga atrás da orelha, o voluntário vai à casa do adotante conferir, podendo até recolher o animal”.

Os estados em que os animais chegam ao sítio são os mais diversos. Denise Menin declara que procura se preservar não abrindo e-mails ou procurando notícias de casos trágicos. Graças a conquistas conseguidas com dificuldade, apesar dos problemas e dos constantes abandonos na porta da ong, a diretora acredita que a situação da causa animal tem melhorado devido à movimentação por conta dos maus-tratos, que a Lei 9.605/98 caracterizou como crime. “A internet também foi importante, porque antes aparecia uma notinha na televisão; se a pessoa não via o canal, não sabia. O telefone aqui não para de tocar. Existem muitos protetores independentes que resgatam um ou dois bichinhos, e isso para mim já é uma ong”.

Denise e sua protegida Yasmin

A entrevista acaba e vou conhecer Yasmin e seus filhotes. A mãezinha cega foi encontrada com seus cachorrinhos por uma mulher que não podia abrigá-los. “Controlamos o limite, mas às vezes não podemos recusar. Ela é coisa mais querida e fofa, estava numa obra do PAC em que passava caminhão e trator para todo lado. De medo, não saía do buraco. A rua toda estava preocupada, mas ninguém podia pegar os filhotes porque todos os moradores viviam em prédios. Os três nenenzinhos estão agora num local que não é próprio para cachorro, mas não tinha jeito. O bom é que já foram adotados”.

Filhotes da Yasmin

Embora tenham recebido a proposta de um amigo para comprar um filhote de shitzu em sua mão, Rafael e Alessandra estão na ong para adotar um filhotinho preto de Yasmin. “Já viemos conscientizados. Os filhotinhos que estão sendo vendidos conseguirão um lar com certeza, mas esses que estão nas ruas, nem sempre. Quando nos mudarmos para uma casa queremos adotar um grandão”.

Filhote de Yasmin adotado pelo casal

 

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