Visita ao abrigo Dona Rosângela

 

São 14h20min. A minha espera termina. Minha companheira de trabalho chegou. Veronica Ribeiro é uma cabo-verdiana que faz intercâmbio no Brasil pela UFMG. Juntas nós iremos contar no livro-reportagem um pouco da rotina dos abrigos e de protetores independentes de cães e gatos abandonados em Belo Horizonte.

 

Pegamos o ônibus 9101 com direção ao Alto Vera Cruz. Após 40 minutos de viagem chegamos ao nosso destino. Batemos ao portão e à campainha por três vezes, mas ninguém nos atende. Na casa da frente não há ninguém. Entramos e batemos no portãozinho que fica no corredor e dá acesso à casa dos fundos. Imediatamente os moradores alertam da nossa presença. Uma senhora abre a frestinha do portão, me apresento a ela, que espanta todos para trás.

 

Lá dentro, somos recebidas como rainhas. Pulos, cheiros, lambidas no rosto, uivos… Todos querem aproveitar das poucas mãos que os afaga. Nunca vi tamanha alegria ao receber desconhecidos. Eles possuem quatro patas, ou às vezes três, um focinho apurado e gelado. Os pulos enormes nos ajudam perceber que são muito carentes. Disputam a nossa atenção e carinho.

 

Tripé nos olhando desconfiada

 

Dona Rosângela começa a mostrar o espaço para Verônica. Eu já havia feito uma visita em dezembro de 2011. Ela mostra o quartinho onde ficam os gatos e uma novidade: outro quartinho improvisado está abrigando duas mães e seus onze gatinhos filhotes. Três deles foram encontrados em um saco de lixo, mas assim como a dona Rosângela, a gata possui um coração enorme e os adotou.

 

Mães e seus filhotes

 

Verônica fica extasiada. Ela ama os gatos e eles, percebendo nossa presença, veem em direção a tela do portão, preparada especialmente para inibir a fuga dos pequenos. Os pequenos escalam as telas, a Vê não resiste e pega um no colo. Os cães nos rodeiam, eles também querem carinho. Pulam todo o momento próximo aos nossos rostos.

As histórias variam. São cães abandonados no Ribeirão Arrudas, perseguidos por jovens que os apedrejaram, outros nasceram deficientes e ninguém nunca os quis adotar. Tem aqueles que foram encontrados em cemitérios, no lixão, vagando pela rua com uma enorme bicheira. Maus tratos provocados pelos próprios donos, todos eles são seres criados pelo nosso pai celestial e, que de alguma forma, foram ignorados, marginalizados pela criação maior.

 

Grandão vagava pela rua com bicheira na pata

 

A situação dos gatos não é diferente e talvez seja pior. São abandonados em caixas de papelão, nos lixos de supermercados. Nas ruas, jogados como se fossem objetos no Arrudas. Perseguidos por crianças, apedrejados, usados em rituais satânicos e poucos são os que conseguem um lar. Na nossa entrevista a senhora de 55 anos revela “Eu estou com 63 gatos. Eles são muito mais difíceis de serem adotados porque demoram um tempo para se adaptarem ao novo ambiente e as pessoas não possuem paciência. Somente os filhotes são adotados e ainda sim há pouco tempo uma amiga chegou com um filhotinho encontrado na rua. Ele havia sido adotado na semana anterior. Eu fiquei muito triste. Agora só doou pra quem põe telas nas janelas e gostam realmente deles”.

 

A maior dificuldade do abrigo é a falta de voluntários. Ela sozinha limpa o ambiente, alimento os patudos, lava os panos e, recentemente, houve um surto de cinomose no abrigo. Os filhotes que não terminaram de receber todas as vacinas foram contaminados. Todos devem ser medicados ao longo do dia. Além da limpeza da boca e focinho, para não passar a secreção para os outros cães. “Quando eu era mais nova, tinha mais pique. Agora já estou com dificuldades de cuidar disso tudo. Eu acordo às seis da manhã e durmo por volta das dez. Comecei a lavar os panos e colchas dos cães na máquina porque não dava conta mais de fazer à mão. Ai ela estragou devido a grande quantidade de pelos. Eles estão há algum tempo sem tomar banho porque sozinha não consigo. Até combinei com uma amiga pra ela me ajudar. Damos banho na metade, e a outra fica pra outro dia.”

 

 

E pelo mesmo motivo a nossa heroína tem se recusado a abrigar mais animais. O telefone toca toda hora. São em torno de quatro interrupções durante a nossa conversa. Todos pedindo albergue para cães. Além da ajuda financeira, o que as pessoas não entendem é a necessidade da ajuda física.

Eu pergunto quando foi o primeiro resgate da Rosângela e solta logo um ‘iiiiixi’! Ela não lembra porque desde que entende por gente sempre cuidou de animais abandonados. Começou pequena, quando o pai saía pra trabalhar e chegava em casa com um cachorrinho ou gatinho encontrado na rua:

– O que esse tem pai?

– Está cheio de carrapatos e pulgas, precisa de um banho.

Então os dois faziam a tarefa juntos. Foi assim que ela aprendeu a respeitar os seres de quatro patas.

– E sua mãe não achava ruim? O resto da sua família?

– Minha mãe não se envolvia, meus irmãos também não. Eu era a única de quatro irmãos, mas minha mãe sempre disse para que eles me respeitassem e não criasse problemas comigo. Então obedecem. O morador da frente é meu irmão. Ele não encrenca comigo. A casa foi doada pela minha mãe. Quando ela vê um animalzinho na rua, a primeira coisa que faz é me telefonar.

Pergunto a ela porque cuidar de animais e não crianças carentes, idosos ou pessoas doentes.

– Eu acho que existem muitas pessoas ajudando outras pessoas, mas animais são poucos. Ás vezes um cão passa a vida inteira na rua olhando pra quem passa a sua volta e esperando que seja acolhido, mas só consegue ser ignorado. Eu gosto deles e não consigo ficar indiferente.

 

Banho de sol para manter a cútis bonita

 

A mulher aposentada recentemente é simples. Trabalhava como cantineira de escola. O marido trabalha nos caminhões do lixão. Não possuem acesso à internet e tão poucos são produtos do que segundos alguns julgam ‘modinha’ da conscientização sobre a situação dos animais.

A entrevista é interrompida novamente devido ao barulho. Um homem entra:

– Conversei com o técnico e ele cobrou muito caro. Precisamos consertar a máquina, mas vai ter que ser por um preço camarada.

É o marido de Rosângela, ele também ajuda com os resgates. O seu trabalho é limitado porque trabalha fora.

– Ele nunca se importou. Meus filhos quando moravam comigo achavam ruim. Diziam ‘anão mãe mais um gato. Outro cachorro?’. Agora são casados e não ligam mais. Um dos meus filhos também abriga e tem até uma cadelinha que foi da rua.

– Como você sustenta toda essa turma?

– Eu recebo doações aqui e ali. Tem a casa de ração que me ajuda muito fazendo um preço mais camarada, porque sabem do meu trabalho. E tem a Raphaele. Eu conheci a vó dela na casa de rações. Ela me falou que estava formando em veterinária e me ajudaria a dar vacina, remédios, etc. É bom porque antes eu não sabia que a vacina nacional não é boa,ela deu dicas sobre rações também…

 

Farmácia do Abrigo

 

Pergunto como é feito o processo de adoção dos animais. Ela me fala que eles assinam um termo de responsabilidade. Normalmente ela consegue identificar se uma pessoa é responsável ou gosta mesmo dos bichinhos. “Uma vez veio uma vizinha da rua de cima querendo um cãozinho. Eu perguntei se ela já teve contato com animais antes. Ela me disse que todos os dois cães que ela teve morreram atropelados porque deixaram o portão da casa aberto. Logo eu vi que não são responsáveis. Menor de idade sem a presença dos pais eu também não deixo levar.”

 

 

Infelizmente o termo de reponsabilidade não garante que a pessoa fique com o animal ou que ela não o abandone. Por isso, a dona Rosângela mantém contato com os adotantes. Ela liga para eles para perguntar sobre o animal e sempre pede a pessoa para devolver o bichinho, caso não possa mais ficar com ele: “É melhor me devolver que colocar na rua novamente”. Ela procura fazer a sua parte informando ao adotante dos cuidados que se deve ter com o gato ou cão, vacina, vermífugo, consultas veterinárias de rotina e, caso ele adoeça, medicamentos. Além disso, ela alerta para outro fator muito importante: “animal é pra vida toda. Ou melhor, você vai ter que cuidar durante 16 ou até 20 anos da sua vida”.

 

Galera fazendo a farra

 

Os latidos começam novamente. Os cães estão eufóricos. A nossa entrevista acaba e começamos a tirar as fotos enquanto ela limpa os focinhos doentes.

 

Dona Rosângela limpando o focinho de Tigrão

 

Bela é uma cadelinha encontrada na rua com oito bernes. Após o tratamento o seu passatempo preferido é morder o pescoço da gata, que leva tudo na brincadeira.

 

Bela e a gata paciente

 

-“Mais gente. Para! Não faz isso com a coitada da gata”.

Bela cessa a sua atitude “má” e passa a olhar desconfiada. Dona Rosângela se vira e novamente ela começa a brincar com a gata.

 

 

São 17:25 e já está na nossa hora. Difícil é despedir dessa turma. Tigrão e outros três cães quase derrubaram a Vê no chão buscando um pouco mais de carinho.Ela lava a mão pela terceira vez e promete a si mesmo: “Não vou pegar em mais nenhum, não adianta”.

 

Tigrão e a Vê

 

Morena aceita o desafio. Para ao lado dos seus pés. Olha pra ela. “Não me olhe assim. Já lavei a mão e precisamos ir embora”. A cadelinha se abaixa devagar, vira a barriguinha gordinha para o céu e olha novamente pra cima:

– Oooooh meu Deus! Tudo bem, você venceu. Como é manhosa hein?

 

Morena, a cadela dengosa

 

Na despedida os latidos aumentam. E os pulos também. Agradecemos novamente a anfitriã e seguimos nosso rumo.

 

Nossa heroína segurando Bola, o gato de 9 kg

 

Quer ajudar a Dona Rosângela? Seja voluntário, doe medicamentos, rações e dinheiro. Qualquer quantia serve. Os peludos agradecem. Adote e não compre animais.
Contato:3483-6273

Banco do Brasil
ag: 4403-2
cc: 5171-3
EM NOME DE ROSANGELA

ou Bradesco
ag 2828
cc 122-8
Silvana Messias

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